terça-feira, 21 de agosto de 2012

A Palavra no Centro do Culto

“Porque grande é o Senhor e digno de ser louvado, ele é mais temível do que todos os deuses” (Salmo 96:4), Moisés, inicia a sua composição poética de louvor a Deus, instando todos os habitantes da terra a entoarem um cântico novo ao Deus de Israel; o nome do Senhor deve ser elogiado e a sua salvação anunciada todos os dias; a sua glória e as suas maravilhas são para ser proclamadas entre todos os povos!
A denominação Batista tem o santo brio de valorizar a Palavra de Deus como o centro do seu culto, herança que deve ser preservada, direi, seja qual for o custo.
Esta valorização reflete-se em diversas dimensões muito práticas da vida da igreja. Por exemplo, alguns locais de culto da igreja reformada foram desenhados de maneira a que a Bíblia - o púlpito - ficasse localizado no centro geográfico do templo que era, para isso, redondo e livre de qualquer adorno ou outra espécie de arte visualmente apelativa que desviasse a atenção dos participantes. Em alguns casos, os cânticos, testemunhos, a oração em voz alta e, até, a pregação  ̶  qualquer intervenção considerada humana, portanto  ̶  foram eliminados, de maneira que, após a leitura da Bíblia, a congregação permanecia em meditação e contemplação silenciosa.
A liturgia das nossas igrejas é, também, profundamente influenciada pela importância dada à Bíblia, a infalível e inerrante Palavra de Deus revelada à humanidade. O nosso bom esforço, coletivo e consciente, de colocar a Palavra no centro do culto, proporcionou a criação de uma estrutura litúrgica que, de forma mais ou menos evidente, gravita em torno do momento da exposição das Escrituras pelo pregador, subjazendo a mentalidade de que tudo o que acontece no início do culto destina-se a preparar o povo para, e o que acontece depois é resposta à pregação.
Este não é um erro crasso ou heresia que nos deva levar a uma completa reformulação da nossa forma de estar enquanto igrejas reunidas em adoração. Contudo, é uma perspetiva que pode limitar a nossa compreensão sobre o que é adoração e sobre o que é a proclamação da Palavra e que traz algumas consequências indesejáveis…

I. Irreverência. Lembro-me da notável questão: “Vamos cantar um corinho enquanto esperamos por…?”. Quantos de nós já a ouvimos? Quantos, mesmo, o sugerimos? ̶  Aparentemente inofensiva, traduz uma atitude que menospreza a importância da Palavra de Deus cantada e que entende o momento de louvor congregacional como uma espécie de entretenimento espiritual que antecede o momento que realmente interessa - a pregação. 
Ironicamente, embora advenha do desejo de colocar a Palavra no centro, este comportamento induz a congregação a pensamentos e atitudes de irreverência, pois convida-a a dirigir-se a Deus através do cântico, sob o pretexto de compensar um imprevisto, como um atraso de alguém ou uma questão técnica por resolver. Impelimos os nossos irmãos a entoarem levianamente palavras que deviam ser intencionais, profundamente refletidas e sentidas. Melhor seria explicarmos a razão do atraso ou da espera e pedir a compreensão dos irmãos.

II. Falta de Preparação. Hierarquizar os momentos no culto, elevando o momento da pregação em detrimento do momento de louvor, tem outros efeitos perversos. Um deles é baixar a fasquia em relação à preparação das pessoas que compõem a equipa que dirige o momento de louvor.
Quem vai pregar, espera-se, dedicou muito tempo a orar, a buscar a orientação de Deus, a ler e a estudar a Palavra, para entregar ao povo o resultado de uma intensa preparação; a Palavra é pregada com profundidade e fidelidade às Escrituras; função pastoral, é muito provável que o pregador tenha passado alguns anos no seminário e tenha sido especialmente consagrado e ordenado para o ministério; o seu estilo de vida e testemunho pessoal atestam a mensagem que prega durante trinta minutos a uma hora.
Este padrão de excelência, contudo, não é aplicado à pessoa que tem a palavra durante os outros trinta minutos e verificamos, não raramente, falta de preparação técnica, pessoal e espiritual de quem dirige o louvor. O servo que ministra nessa área não tem de ser profissional para ter uma preparação técnica suficiente, contudo, ele deve ensaiar com afinco; não tem que estudar no seminário, mas deve ser idóneo e treinado nas Escrituras; não tem que ser sobre-humano, mas deve ter um testemunho irrepreensível. E, por essas qualidades, deve ser escolhido pela igreja para exercer o ministério na área do louvor.
Infelizmente, o que acontece, frequentemente, é baixar-se o padrão, elegendo-se, para liderar o ministério de louvor, pessoas que não são pessoalmente, nem espiritualmente idóneas para tal: nas igrejas pequenas porque o leque de escolha é mais restrito, sujeitamo-nos à única pessoa que consegue tocar um instrumento ou que tem uma boa voz; nas igrejas maiores, com maior número de pessoas talentosas, escolhe-se a pessoa com mais capacidade técnica, às vezes profissional; em ambos os casos, independentemente de serem cristãos consagrados, maduros e exemplares.

III. Superficialidade. Consequentemente, temos assistido a uma proliferação inquietante de expressões de louvor vazias de significado ou, melhor, com significados completamente alheios à sã doutrina. Letras pobres, muitas vezes apelando à sensualidade, repetição de fórmulas, imitação de gestos e comportamentos, imprecisões doutrinárias, egocentrismo ̶  verdadeiros disparates!  ̶  seriam assunto para um tratado. Cabe aqui, porém, realçar que, na origem de tudo isto está uma certa subvalorização institucionalizada do louvor nas nossas igrejas, reduzindo-o a um mero entretenimento ou, em alguns casos, extremos, a um instrumento de manipulação.
É importante compreendermos que valorizar a Palavra de Deus e ensinar a igreja a valorizá-la é algo que extrapassa o momento da pregação expositiva, por deveras importante que esta possa ser. Valorizar a Palavra de Deus, amá-la e reverenciá-la, é-o em todos os aspetos da liturgia e em todos os momentos do nosso culto. O apóstolo Paulo enfatizou por diversas vezes que, quando a Palavra de Cristo habita em nós, ela é reproduzida e ensinada através de”salmos, hinos e cânticos espirituais, louvando a Deus com gratidão” (Colossenses 3:16; Cf. Efésios 5:19).
Por conseguinte, a proclamação da Palavra durante o culto não deve ser compartimentada. Pelo contrário, ao longo de todo o culto ̶ desde as orações, os cânticos, a entrega do dízimo até à pregação expositiva ̶   tudo deve ser permeado, motivado, inspirado e baseado nas Escrituras.
Se “do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Lucas 6:45), a boca do povo de Deus expressa qual é o bom tesouro que está no seu coração e esse tesouro é a preciosa Lei, lá colocada pelo próprio Deus (Isaías 51:7).
Portanto, não negligenciemos em momento algum o valor da proclamação da Palavra através dos cânticos de louvor. Antes, como Moisés, anunciemos “as maravilhas daquele que [nos] chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9).
Por Luísa Roxo Couto

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